Ao acordar, senti algo me apertando, como se fosse uma calça justa demais ou algo que tira o ar.As vezes duvido de seu apego e hoje ficou mais difícil acreditar em suas promessas. Cada dia que eu passo sem o teu sorriso, fica claro como a luz do dia, que está numa nuvem, perdido, sem direção, esperando a hora de receber calor e depois despejar o seu pranto chuvoso nas tardes quentes que ultimamente esta afetando a cidade de São Paulo.
Você chegou devagar, aos poucos e nem deu tempo para pensar. Já estava em cima, na corda bamba do amor. Me sentia próximo ao céu, sempre que perto do sorriso teu.
Intolerante, confuso e sem flores. Me senti assim, depois de ter caído do alto da corda, que a mim lembrou o alto da torre. Agora, me via como aquela nuvem, sem rumo, destino e cheio de Nada. Procurando calor pra substituir o vazio. Indo para lá e para cá, sem saber pra onde ir.
Nas noites, continuei minha peregrinação ao improvável, apenas o sopro leve do vento guiava-me, até que parado numa colina, comecei a sentir frio e avistei você ao lado. Surpreendido, encheu-me de calor, trouxe de volta uma esperança que durou apenas três minutos e doze segundos.
Diante de tantos fatos, desci da nuvem, da torre e a corda bamba volteou a seu lugar de onde não devia tê-la arrancado. Combinei com o vento para que te sopre para longe, onde possa apenas mandar notícias.
Na volta ao circo, o picadeiro já não parecia como aquele velho amigo, havia algo diferente. Desfrutava naquele momento o sabor das mudanças. Ali, consolidando minhas viagens, via o final de pequenas batalhas de mim contra eu mesmo. Assistia no espelho que já não fazia mais parte e nem queria prazer justamente por prazer. Todos os dias, bem lentamente, quando confio mais em mim, subo novamente o degrau.
Chegar ao topo pode demorar, mas nem tenho mais tanta pressa assim. Recentemente tenho pensado em dormir e acordar em paz, com os pés no chão sem que me falte ar.
Há tempos estou pra lhe falar algumas coisas. Tudo tem ficado muito confuso, cada vez mais sinto que você me alcança menos e acho que esclarecer algumas coisas pode ajudar. Você diz que me ama, mas talvez esteja enganado. O amor compreende, e o amor só ama de verdade aquilo que o completa. Talvez você ame quem você é quando estou por perto. Talvez você ame apenas a idéia que tem de mim, e isso não sou eu. Isso é você querendo que eu caiba nos seus anseios, nos seus desejos. Vê? Isso é você amando a si mesmo. Essa é a soma das suas perspectivas, que muitas vezes não condiz com o real. Nesse caso, não tendo eu outra alternativa além de ser o que eu sou, a você restam duas opções: me ame, ou me deixe. Me queira com tudo o que eu tenho de bom e de ruim, com todas as idiossincrasias e as pequeninas coisas que muitas vezes você nem considera correto. Entenda que eu não escolhi e nem tenho culpa de ser cavalo selvagem: o fato de você conseguir cavalgar comigo depende unicamente da sua destreza. Entenda que eu sou como um gato, variável , inconstante, mas sempre honesto: uma vez que se sabe lidar com ele é garantia de carinho e apego eterno. Caso contrário, arranhões e comportamento arredio são inevitáveis. Caso contrário, se prepare pra me ver fugir ou te ignorar. Quem quer conviver com bichos selvagens deve estar preparado para as intempéries. No mínimo existe a garantia de surpresa e nenhuma previsibilidade, nunca se sabe o que pode acontecer. Pra uns isso pode parecer desesperador, para outros é apenas imensamente emocionante. É sempre seu direito botar na balança e decidir se quer viver assim na corda bamba, numa aventura sem roteiro pré-estabelecido. Mas se me quer por perto, deixa-me ser. Não me tome por pretensiosa por falar desse jeito sobre mim mesma. É apenas uma tentativa de que eu e você descubramos se existe realmente algum laço real, ou se ele é feito de filó. Decifra-me, ou te devoro. Sem dó nem piedade.